Reconhecida por suas publicações sobre Ciências Humanas e seu catálogo de livros infantis e juvenis, a Martins Fontes completa 35 anos como editora de referência nessas áreas no país, status este conquistado pelo rigor na escolha de títulos e no tratamento dos textos.
Atualmente, um dos principais atores na manutenção e crescimento da marca Martins Fontes é Alexandre, um dos filhos que recebeu em 2000 o legado de quase 50 anos de existência de um selo construído com zelo pelo pai que iniciou seu caminho quando era apenas um jovem vendedor de livros de porta em porta na cidade de Santos.
Alexandre Martins Fontes tem 49 anos e é herdeiro, juntamente com o irmão, da rede de editora e livraria formada por seu pai no início dos anos 60. Hoje, Alexandre é responsável por parte da administração da empresa na função de Diretor Executivo da Editora Martins Fontes. É responsável também por um dos dois selos editoriais, a WMF – Martins Fontes.
Pergunta: Como nasceu a editora Martins Fontes?
AMF: A Martins Fontes foi fundada pelo meu pai e mais dois irmãos. A editora nasceu como uma livraria na cidade de Santos em janeiro de 1960. Mas, a vida do meu pai no mundo do livro começou alguns anos antes vendendo livros da Editora Globo de Porto Alegre de porta em porta. Entre 1967 e 1968, meu pai foi para Portugal, pela primeira vez, porque percebeu um mercado no Brasil muito importante para os livros publicados em Portugal. Mercado esse que era muito mal explorado. Quando uma editora portuguesa comprava os direitos para editar um livro em português, o contrato não estabelecia território então, muitos livros não podiam ser publicados no Brasil. Meu pai, percebendo que eram muitos os bons livros que não chegavam ao Brasil, foi para Portugal na condição de livreiro para importar esses exemplares para o Brasil e depois distribuí-los nacionalmente. Esse é o primeiro passo da Martins Fontes como importadora e distribuidora de livros portugueses. Nesse mesmo período passamos também a exportar nossos livros para o mercado português.
Pergunta: Qual a importância desse rumo dos negócios para a Martins Fontes?
AMF: No momento em que uma empresa passou a importar e a viabilizar a comercialização desses livros aqui no Brasil, o mercado foi crescendo e durante pelo menos 20 anos, a Martins Fontes passou a ser a principal importadora e distribuidora de livros portugueses no Brasil. Por esse motivo, meu pai passou a ser um personagem VIP nesse meio. Importante à ponto de influenciar o que as editoras portuguesas publicariam. Meu pai dizia aos editores portugueses: “O Brasil tem interesse nessa publicação. Publique que eu fico com parte dos exemplares”. Alguns livros eram produzidos em Portugal mas a quantidade a ser exportada para o Brasil era tão grande que tinha uma capa especial com o nome da Martins Fontes.
Pergunta: E quando ela começou a publicar os próprios livros?
AMF: Em meados dos anos 70. Por volta de 74 e 75 é que a MF começa a publicar seus primeiros livros como editora, comprando direitos autorais. Foi assim que ela passou a ser, lenta e gradualmente, a parte mais importante do nosso negócio. Hoje, se você viajar pelo Brasil e conversar as pessoas, elas conhecem a MF e não necessariamente conhecem a livraria.
Pergunta: A que se deve essa diferença do reconhecimento entre editora e livraria?
AMF: O nosso livro é produzido em São Paulo mas é vendido em Porto Alegre, em Manaus, em Belém, enquanto que as nossas livrarias estão circunscritas a apenas algumas cidades, Santos, São Paulo e Rio de Janeiro.
Pergunta: A livraria de Santos é a mesma de 1960? E as demais?
AMF: A livraria em Santos vai completar 50 anos em 2010 e é administrada ainda pelos dois irmãos do meu pai e também por dois filhos desses meus tios. Além dela, temos 4 livrarias em São Paulo e uma no Rio de Janeiro. Eu administro duas aqui na capital, meu irmão administra as outras duas e a livraria do Rio de Janeiro.
Pergunta: Como está a estrutura da MF hoje?
AMF: A MF tem perto de 2 mil títulos no seu catálogo. Há 5 anos nós criamos dois selos editoriais, a “WMF Martins Fontes” e a “Martins” que é administrada pelo meu irmão. De 2005 em diante os novos livros passaram a ser publicados pela WMF ou pela Martins.
Pergunta: Essa divisão é editorial?
AMF: Não. Os catálogos dos dois selos são semelhantes. A área de atuação, o tipo de livro publicado, não tem uma regra que restringe o que cada um vai publicar. A criação dos dois selos foi o caminho que nós encontramos para que os dois pudessem desenvolver um trabalho independente. Empresa familiar tem certa complexidade e nós fomos muitos felizes de encontrar uma saída, afinal, tanto eu quanto ele gostamos do que fazemos.
Pergunta: Qual a responsabilidade de dar seqüência ao trabalho iniciado por seu pai?
AMF: Meu pai faleceu em 2000. Ele ficou à frente da empresa de janeiro de 1960 à novembro de 2000. Ele tinha 66 anos. Quando a livraria começou ele estava com 26 anos. Eu estou na empresa desde os anos 90 e me sinto muito privilegiado de poder dar andamento ao trabalho que meu pai começou a fazer tão brilhantemente porque trabalhar com livros é viciante. É uma indústria pobre comparada às outras. Evidentemente, todas as pessoas nessa indústria ganham menos do que se ganha em outras mas, dificilmente, você convence um editor, o presidente de uma editora, um vendedor de livros a sair trocar de universo, mesmo que seja para ganhar mais. O livro tem um encantamento.
Pergunta: Por falar em encantamento, porque o Brasileiro não se encantou pelo hábito da leitura? Como as editoras podem encantar o público?
AMF: O Brasil é um pais muito grande mas o mercado de livros é um mercado muito pequeno. Para a infinita maioria da população Brasileira, o livro ainda é um objeto estrangeiro. As pessoas crescem em suas casas sem ver um livro. Crescem e vivem sem ler um livro. Ainda é uma minoria que tem acesso à leitura. Mas, mesmo assim, é um mercado que vem crescendo nesses últimos anos. A Martins Fontes, como empresa, só cresceu. Cresceu porque foi bem administrada, tem um trabalho bem feito, mas o mercado também permitiu. Se não existe consumidor não há como crescer. Mas o mercado continua crescendo por razões óbvias. A carência do país. Se estivessemos em um estágio em que todos lessem, todos compram livros, esse seria o topo, difícil de crescer e passível de uma queda, que é o que está acontecendo hoje nos Estados Unidos e Europa com a crise atual. No Brasil, como a maioria das pessoas nem tem acesso ao livro, na medida em que essas pessoas, que o país vai melhorando e a economia vai dando os seus passos certos, a tendência é que esse mercado cresça. O problema da carência é muito mais complexo e não é uma editora ou as editoras que vão resolver. Estamos falando de infra-estrutura educacional, social. Grande parte da população tem dificuldade de ter acesso à alimentação, imagine ao livro. O papel das editoras é fazer o nosso melhor. Fazer um livro bem feito, escolher bons títulos para serem traduzidos e publicados, cuidar do trabalho editorial, da divulgação, da diagramação, da tradução, da venda. Assim acho que estamos ajudando o mercado a se desenvolver e a crescer.
Pergunta: As pesquisas apontam que o Brasileiro lê muito menos livros por ano do que os europeus e norte-americanos. Isso se deve ao preço dos livros no Brasil?
AMF: O que vai permitir que um livro tenha um preço final mais alto ou mais baixo, é um ponto absolutamente primordial: Tiragem. Quando se faz um livro, temos que comprar direitos autorais, fazer a tradução, que é cara, paginação, diagramação, contratar um capista, gráfica, papel, impressão. Tem os custos de distribuição. Todos esse custos em uma tiragem pequena será dividido por um número menor. Obviamente, o custo fica alto e essa baixa tiragem é o que a situação Brasileira atual exige com seu mercado restrito. Se os mesmos custos fossem divididos em uma tiragem 10 vezes maior - tivéssemos nós um mercado 10 vezes maior – teríamos, de cara, diminuído esse custo por 10. O livro nos países mais desenvolvidos só são mais baratos, portanto, porque o mercado é grande e permite a tiragem maior.
Pergunta: Qual a solução para se criar a cultura de ler nos Brasileiros. Qual o papel das bibliotecas nesse cenário?
AMF: Educação, educação e educação. O hábito de ler nasce na infância e se firma com o passar dos anos. Nesse sentido, o papel das bibliotecas é muito importante. É lá que as crianças tem os primeiros contatos com o mundo do livro. O bibliotecário também é responsável pelo incentivo à leitura das crianças e jovens. São eles que tornam a biblioteca o lugar onde se vai para adquirir conhecimento e cultura. As escolhas dos bibliotecário são importantes para a qualidade do material disponível e conseqüentemente, o aumento do interesse de seus usuários. O bibliotecário é quem guarda e preserva os livros. O ambiente da biblioteca com funcionários de valor reconhecido pelo governo e pela população é fundamental para a criação do hábito da leitura e no aumento do desenvolvimento do mercado de livro.