De Barcelona, na Espanha, a professora Alice Keefer, deu entrevista ao SinBiesp Notícias, na qual aborda as novas possibilidades no mercado de trabalho para os bibliotecários, além de contar sobre a sua rica trajetória profissional e o cenário atual das bibliotecas na Espanha, onde as unidades públicas se beneficiaram de uma política de investimentos na área. Segundo Alice Keefer, que ministrará as aulas de seminário promovido pelo SinBiesp dia 15 de setembro, estudos recentes sobre o crescimento dos repositórios institucionais digitais mostram que a maioria se encontra sob a responsabilidade da biblioteca ou do serviço de informação. “Isto é muito positivo e é importante que fique assim: as bibliotecas têm que manter a capacidade de se responsabilizar pela gestão da informação digital como sempre fizeram com recursos de informação em suportes tradicionais”, afirma a professora nesta entrevista.
SinBiesp - Em sua trajetória como profissional da informação, quando e como ficou claro o novo rumo que se abria na profissão?
A. Keefer – Desde 1977, portanto há 28 anos, eu trabalho com sistemas informáticos. Tive um trabalho com a agência norte-americana do ISSN, sediada na Biblioteca do Congresso dos EUA e usávamos o banco de dados OCLC para a localização de publicações periódicas nacionais e a introdução posterior do ISSN e o título chave assinados por nosso centro. Este contato inicial me estimulou a ver a capacidade das conexões em linha e dos bancos de dados para a recuperação da informação. Alguns anos mais tarde, trabalhei na biblioteca da Organização dos Estados Americanos (OEA), também em Washington, justamente quando esta organização começou a automatizar alguns de seus processos. Ou seja, durante este período de minha vida profissional tive a oportunidade de ser testemunha dos primeiros passos da incorporação de novas tecnologias no mundo das bibliotecas.
Morando na Espanha, desde 1984, fui co-fundadora em 1989 de uma empresa – DOC6 - dedicada a diferentes aspectos da automatização das bibliotecas e o acesso da informação digital. Ali fui a responsável pela comercialização dos serviços da OCLC nas bibliotecas espanholas, principalmente nas universitárias. Presenciamos muitos avanços, desde a extensão dos CD-Roms nas bibliotecas espanholas no início da década até a explosão dos serviços web ao final da década. Ao trabalhar como intermediária, tive a oportunidade de conhecer o impacto dessas mudanças tecnológicas – tanto positivos como negativos – sobre os fornecedores e as bibliotecas. Foi quando comecei a dar conta da profunda transformação que isso representava para todos os envolvidos: bibliotecas, intermediários, editores,etc. Fiquei tão impressionada que, inclusive, escrevi um artigo sobre essas mudanças: “Nuevos retos para los provedores de servicios de información” [En: Item 18, gener-juny 1996, pag. 28-34].
Pouco depois passei a trabalhar na Faculdade de Biblioteconomia e Documentação da Universidade de Barcelona, onde pude observar esta evolução permanente para tentar preparar meu alunos para o mundo do trabalho que lhes espera.
SinBiesp - No Brasil, os bibliotecários se ressentem da baixa valorização da profissão em relação a outras carreiras. Como é na Espanha o posicionamento do bibliotecário no mercado de trabalho?
A. Keefer - As coisas melhoraram muito na Espanha nos 20 anos que vivo aqui. Por exemplo, os estudos de biblioteconomia e documentação já estão reconhecidos em nível universitário e já existe um programa de doutorados. As bibliotecas universitárias passaram para um nível de profissionalismo igual aos demais países europeus e as públicas, em determinadas comunidades, também se beneficiaram de maiores investimentos. Creio que a entrada da Espanha na Comunidade Européia foi um passo muito importante para que o sistema de bibliotecas (igual ao que ocorreu em outros setores) se modernizasse depois de muitos anos de abandono, graças aos exemplos dos demais países e também dos investimentos europeus através de diferentes programas de desenvolvimento e projetos de pesquisa. Por exemplo, a Biblioteca Virtual Chillias, voltada para o usuário infantil, foi produto de um projeto europeu no qual participou a rede de bibliotecas populares da província de Barcelona. (http://www.diba.es/chilias/inici.asp)
Creio que os bibliotecários do setor público tenham se beneficiado mais, enquanto no setor privado as condições são muito desiguais – entre diferentes ramos e entre diferentes regiões geográficas.
SinBiesp - Qual a sua opinião a respeito da leitura como indutor do desenvolvimento? Nos países avançados, é necessário continuar estimulando a leitura? Isso acontece? Como?
A. Keefer - Creio que a leitura volta a encontrar-se ameaçada no mundo mais “avançado”, devido aos entretenimentos introduzidos pelas novas tecnologias: internet, jogos informáticos, o “messenger”, etc. Embora não me dedique profissionalmente a este tema, sei que e rede de bibliotecas públicas de Barcelona dedica muitos esforços para a promoção da leitura. Mas não sei se realmente eles têm tido muito êxito contra a concorrência dos poderosos setores econômicos que buscam sempre ampliar seus mercados.
SinBiesp - Com o surgimento da internet, a profissão de bibliotecário já mudou bastante. Quais os novos campos de atuação que estão sendo mais explorados pelos bibliotecários europeus?
A. Keefer - É evidente que a responsabilidade passa da gestão de *documentos* para a gestão da *informação” que pode não estar fisicamente nas bibliotecas. Ao mesmo tempo, implica em uma mudança cara ao usuário. Assim, algumas das atividades previstas para os bibliotecários no futuro serão:
* ensinar e assessorar sobre o uso de recursos web – estes podem ser fáceis de recuperar mas por sua vez podem ser muito complexos: por exemplo, o Geographical Information Systems;
* criar novos recursos de informação baseados em material de diferentes fontes;
* estruturar e administrar webs;
* realizar buscas inteligentes na rede.
Claro que nem todos poderão assumir estas novas funções [eu, por exemplo], mas o que é importante é que a biblioteca não deixe que estas novas atividades passem às mãos de outros setores, por exemplo, os profissionais de informática. Estudos recentes sobre o crescimento dos repositórios institucionais digitais mostram que a maioria se encontra sob a responsabilidade da biblioteca ou do serviço de informação. Isto é muito positivo e é importante que fique assim: as bibliotecas têm que manter a capacidade de se responsabilizar pela gestão da informação digital como sempre fizeram com recursos de informação em suportes tradicionais.
SinBiesp - Além do seminário no SinBiesp, que permitirá o contato com bibliotecários que atuam no Brasil, o que mais você pretende conhecer no país no campo profissional?
A. Keefer - O motivo desta viagem ao Brasil é para uma série de conferências que meu marido (médico) fará. Quando decidi acompanhá-lo, também queria aproveitar minha estada em São Paulo para ter algum contato com o universo profissional. E acabei aceitando o convite da presidente do SinBiesp, Vera Stefanov, com a qual tive contato com uma aluna brasileira do programa de doutorado da Universidade de Barcelona, Rute Santos. Se o tempo permitir, gostaria de ter oportunidade de conversar com outros profissionais do SinBiesp para conhecer a situação atual no Brasil relacionada com os temas que mais me ocupam atualmente: gestão dos recursos digitais, repositórios institucionais e preservação dos recursos digitais.
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